Este é um Blog educacional, dedicado a discussões acadêmicas sobre a Ecologia Evolutiva. Contém chamadas específicas relacionadas às disciplinas de Ecologia da Universidade Federal de Ouro Preto, e textos didáticos gerais.
Terça-feira, 20 de Abril de 2010
O que é espécie? Uma análise provocativa!

O capítulo introdutório do livro do Levin (2000) deixa claro que o que aceitamos como espécie é na verdade um apanhado de propriedades emergentes que atribuímos a um grupo de populações que comungam destas propriedades em seus detalhes. Assim, desde as características morfo-comportamentais, que são a expressão fenotípica dos caracteres selecionados, bem como uma relação de troca gênica panmítica e universal entre os grupos fundamentam a definição geral do que seria uma espécie. Observe, nada disto existe em "um indivíduo", mas é uma propriedade emergente por ser um produto comum que nos permite eleger uma identidade! Entretanto, para bem além da reprodução panmítica com descendentes férteis, temos aspectos controversos nos limites de quem é quem, em especial nos trópicos, onde espécies co-genéricas, variedades, sub-spécies e ecotipos são amplamente confundíveis. Ao aprofundarmos os estudos sobre qualquer espécie de ampla distribuição biogeográfica, descobrimos variações constantes, que se seguidas ao longo de gradientes ambientais (aumento de altitude, aumento de umidade, aumento de nutrientes, etc) correspondem aos clines. Estes são séries continuas de populações com ligeiras diferenças direcionais, frutos de ajustes finos à pressões seletivas gradualmente diferentes. Veremos mais para frente que os clines são a matéria prima para um tipo de especiação, que é a especiação parapátrica.

Toda a dúvida e percepção do que será o limite da distribuição de uma espécie é só um exemplo. Afinal, se esta muda em ambientes distintos, o que será então o limite que marca o surgimento de uma nova espécie, via especiação, no tempo? Todas estas análises  passam por estes conceitos às vezes frágeis, e pela dúvida de até onde uma espécie pode ir ser perder a premissa de não isolamento e fluxo gênico? Mais para frente, veremos que este ainda é um ponto frágil da Moderna Síntese. Embora o neo-darwinismo lide maravilhosamente bem com a sobrevivência do mais apto, e com a origem de uma espécie via a mutação de uma outra ancestral, a Teoria não apresenta todos teoremas para esclarecer este ponto de mudança, esta virada e quebra entre um “ente” para outro “ente” biológico, identificável. Assim, reflita e responda:

1)      O que são as principais propriedades emergentes que delimitam uma espécie (assuma uma definição que te pareça mais adequada e responda)?

2)      Como podemos definir em que ponto que uma espécie mudou tanto que não poderia mais ser considerada a mesma espécie que a ancestral? Em que escala te parece mais difícil determinar este limiar? Na espacial, ou na temporal? Explique.

3)      Se uma espécie não gerar uma outra espécie além dela (portanto, com a co-existência da espécie ancestral e a espécie derivada), mas simplesmente desaparecer deixando uma descendente, o raciocínio muda de que maneira?

São questões difíceis, não desespere, mas tente forçar seu raciocínio e leitura ao máximo para respondê-las. É com o fracassar sincero que se abre as portas para entender o raciocínio básico e fundamental de toda a teoria, ok? Resolvendo isto, qualquer prova será muito fácil!



publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 01:30
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