Este é um Blog educacional, dedicado a discussões acadêmicas sobre a Ecologia Evolutiva. Contém chamadas específicas relacionadas às disciplinas de Ecologia da Universidade Federal de Ouro Preto, e textos didáticos gerais.
Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011
Seminários - Evolução Humana

Evolução humana

Gabriela Marangon

Iuri Silveira Martins

Mariana Micaela

Thais Rosada

 

A evolução humana é de interesse praticamente universal. Esse tema é o ponto central dos ataques criacionistas à evolução, enquanto que para outros é o tema que pode oferecer pistas ao mistério que cerca o “modelo perfeito dos animais” e a compreensão das possibilidades e limitações da “natureza humana”. Mas nós devemos ter consciência  de que ao mesmo tempo em que a biologia evolutiva tem muito a ver com a condição humana, esta também é parte da antropologia e sociologia, da psicologia e da história, e da filosofia, religião, artes. Os seres humanos são complexos demais para serem compreendidos somente pela perspectiva da biologia ou de qualquer outra área isolada do conhecimento (Futuyama et al. 2002).

A espécie humana apresenta uma posição filogenética dentro da Ordem Primata. Nesta, está a Superfamília Hominoidae, que incluem grandes macacos e homens. Os homens modernos, da Família Hominidae diferem das outras espécies de Hominoidae na estrutura da coluna vertebral, pé associado com o bipedalismo, polegar opositor bem desenvolvido, cérebro aumentado.

Humanos e chimpanzés (Família Pongidae) têm sequências idênticas de aminoácidos em várias proteínas; o DNA humano difere somente 1,1% dos pares de bases do genoma dos chimpanzés.

Wilson e Sarich (1969), estudando a distância imunológica do soro do chimpanzé e de humanos, concluiu que essas espécies divergiram há 4 ou 5 milhões de anos.

Os estudos para demonstrar o parentesco entre os Hominoidea incluem sequências de aminoácidos e outras proteínas e sequências nucleotídicas. A partir dessas análises, não consegue se distinguir o parentesco entre o chimpanzé ( Pan), gorila e homem, devido as relações tão próximas desses. Um teste de parcimônia de dados obtidos com enzima de restrição levou Templeton (1983) que o gênero Homo divergiu antes que os gêneros Pan e Gorilla divergissem um do outro. Já Nei e Tijama (1985), criticaram Templeton e concluiram, a partir dos mesmos dados, que Homo e Pan estão mais relacionados.

Durante a evolução dos hominídeos ocorreram algumas classes principais de mudanças, que começaram a ser observadas nos ancestrais primatas:

  • Mudanças nas mãos: o polegar completamente oposto é restrito aos grandes macacos (orangotangos, gorilas, chimpanzés) e humanos.  O dedo polegar humano é mais longo do que no chimpanzé ou gorila. Além disso, é posicionado ligeiramente mais longe dos outros quatro dedos, o que lhe permite opor-se a eles, bem como ter maior rotação.
    Nosso dedo polegar pode ser girado contra os dedos, o que permite pegar objetos de diferentes tamanhos com a mesma eficiência e manipulá-los com maior destreza. Essa alteração anatômica possibilitou uma ampla variedade de funções que os humanos têm e os macacos não.
    O polegar opositor nos dá tanto força para agarrar, quanto precisão para desenvolver movimentos sutis. As atividades executadas pelas mãos humanas são bastante diversificadas e possibilitaram não somente a utilização de ferramentas como a lança e o machado, mas também linha e agulha.
  • Mudanças nos pés: o dedo que nos macacos é oponível, foi sendo perdido na evolução humana à medida que os pés foram evoluindo para o bipedalismo. Caracterizados por possuírem dedão grande e capaz de agarrar galhos, os pés das espécies de macacos atuais são adaptados essencialmente à vida nas árvores. Os pés dos humanos, por sua vez, são adaptados à locomoção bípede e o seu dedão serve como uma plataforma flexível para caminhar e correr.
  • Aumento do cérebro: Os chimpanzés atuais têm cérebros com 350 a 400 cm³, e provavelmente nossos ancestrais tinham cérebros de tamanhos semelhantes. Os cérebros dos humanos têm cerca de 1350cm³.
  • Mudanças nas mandíbulas e dentes: durante a evolução humana, as mandíbulas retraíram-se para trás para a face. Já as mandíbulas dos chimpanzés e nossos ancestrais projetam-se para frente de suas faces. Os nossos dentes também se tornaram menores, especialmente os caninos. Dentes humanos são geralmente menores e menos especializados que os dos macacos.e a perda de caninos distintivos nos Hominídeos às vezes é considerado como um sinal que formas menos competitivas e mais cooperativas de comportamento social emergiram há muito tempo.  Nossas mandíbulas são relativamente pequenas. Esta tendência na diminuição da robustez coincide no registro fóssil ao uso de fogo, e portanto a substituição de uma característica física decorrente da aquisição de técnicas culturais que acabaram por assumir algumas das funções biológicas básicas, como mastigar materiais duros para torna-los digestível.  
  • Bipedalismo: locomoção ereta sobre duas pernas. Essa adaptação se reflete também nas vértebras, no comprimento dos braços e na posição do crânio sobre a coluna cervical. Bipedalismo e postura ereta são duas características co-relacionadas que precederam o advento da espécie humana. Já se manifestavam em alguns de nossos ancestrais mais remotos. O fato de serem bípedes lhes permitiu sobreviver às mudanças climáticas que transformaram as florestas em savanas, há 5 milhões de anos.
    Com a nova postura, as mãos ficaram livres para realização de outras tarefas que levaram ao aparecimento de um modo distintamente humano de vida. Nele se pode destacar a produção de ferramentas, com que o homem e seus ancestrais adquiriram vantagens na adaptação ao meio natural. Publicada no periódico "Proceedings of the Natural Academy of Sciences", em 16 de julho de 2007, uma pesquisa dirigida pelo antropólogo Michael Sockol, da Universidade de Nova York, propõe a teoria de que o ser humano passou a andar em pé porque isso é menos custoso em termos energéticos.
    A conclusão do estudo afirma que o homem - por ser bípede - gasta 25% menos calorias para caminhar do que o chimpanzé, o qual anda com o auxílio dos braços, além das pernas. Talvez se possa considerar esse resultado uma evidência de que a preguiça é parte integrante da personalidade da espécie humana.
  • Mudanças no comportamento social e cultural: a situação cultural de uma sociedade pode ser observada por meio das ferramentas e outros objetos associados aos fósseis. A principal inovação da cultura humana é a linguagem, sendo difícil estudar sua origem.

Registros fósseis

Os fósseis mais antigos atualmente aceitos, de modo geral, como membros da linhagem dos hominídeos têm cerca de 4,4milhões de anos e são classificados em duas espécies, Australopithecus anamensis e A.afarensis (Ridley et al. 2006).

O A.afarensis é bem mais conhecidos pois apresenta o espécime mais completo, chamado de “Lucy”. Uma das características mais notáveis de Lucy foi possuir um joelho virado,além de ter sido encontrada junto vestígios fosseis de pegadas, que indicava que ela normalmente se movimentava por andar ereto. Sua cabeça femural era pequena e seu pescoço femural era curto, sendo ambas características primitivas. Os Australopithecus se aproximaram mais da forma humana quanto ao modo de locomoção do que mandíbulas e cérebros.

Por volta de 2,5 a 2 milhões de anos, na África, surgiram espécies de Paranthropus, que divergiram dos australopitecíneos, com mandíbulas, crânios e molares muito mais fortes e capazes de comer alimentos mais duros. Extinguiram-se sem deixar descendentes.

A primeira espécie Homo é o Homo habilis, que surgiu há aproximadamente 2,5milhões de anos na África. Possui um cérebro maior que melhorou a eficiência nas caçadas, tanto pelo desenvolvimento de ferramentas, quanto pela melhoria na capacidade de comunicação. Seu dimorfismo sexual era semelhante ao dos humanos atuais, sendo os machos cerca de 1,20 vez maiores do que as fêmeas, em média.

O Homo erectus foi o primeiro hominídeo que saiu da África, há cerca de 1,5 milhão de anos. Foram encontrados fósseis no leste da Ásia e sul da Europa. Tinha aproximadamente 1,70 metros de altura e pesava cerca de 60kg.  Possuía cérebro do tamanho da metade do nosso, tendo domínio do fogo.

Os paleontropólogos se referem aos seres humanos atualmente existentes- Homo sapiens- como “humanos anatomicamente modernos” (Ridley, et al. 2006). Entre as principais características está o aumento do tamanho da caixa craniana, além da diminuição da robustez do esqueleto e dentes. Quanto ao aspecto comportamental, houve o desenvolvimento de ferramentas mais apuradas, melhor eficiência nas coletas e procura de alimentos, organização social mais complexa e o desenvolvimento de idiomas.

Expansão do homem moderno

Atualmente é aceito que os primeiros hominídeos evoluíram da África. As questões difíceis, contudo, dizem respeito aos fenômenos que ocorreram durante o qual a evolução do homem moderno teve lugar.

De acordo com a hipótese Multirregional, com base nos registros fósseis, os ancestrais do homem moderno realizaram as primeiras migrações a partir da África, que duraram milhões de anos. Estas migrações permitiram a formação de diferentes populações de Homo erectus que evoluíram separadamente para as recentes raças humanas.

Já a segunda hipótese , a  de Origem Única,  diz que um pequeno grupo de humanos modernos teriam colonizado a Terra a partir de um único lugar. A evidência genética tende a favor dessa hipótese. A partir da análise de DNA mitocondrial de pessoas ao redor do mundo, mostrou evidência sobre um ancestral comum aos humanos atuais. Além disso, extraiu-se DNA de fósseis de Neandertal, observando que sua sequência era diferente das dos humanos atuais. Pela hipótese regional, esse DNA deveria caber na filogenia humana, mas na verdade isso não ocorre, sugerindo que do Neandertais não contribuíram geneticamente para populações atuais.

Evolução cultural

A evolução cultural consiste de mudanças no comportamento fundamentadas no aprendizado e não em alterações de freqüências gênicas. Ela pode ser tanto vertical (transmissão dos mais velhos para os mais jovens) como horizontal (por imitação de práticas entre irmãos e entre companheiros do mesmo grupo) (Futuyama, et al.2002).

As inovações culturas também sofrem processos seletivos, no sentido em que algumas práticas se tornem parte da cultura ou não, sendo fixadas devido à uma utilidade.

Segundo Futuyama (2002), a evolução cultural é larmarckiana: o comportamento, a língua e as peculiaridades de um individuo adquire durante a sua vida, são transmitidos para seus descendentes ou para outros indivíduos. Consequentemente, a mudança cultural pode ocorrer muito mais rapidamente do que a evolução biológica e mudanças súbitas podem ocorrer numa única geração.

Muitos autores têm especulado sobre quais as forças da seleção natural levaram às características marcantes dos humanos. Muitas características humanas, por exemplo, aparecem neotênicas (capacidade de retenção, na idade adulta, de características típicas da sua forma jovem ou larval). Neotenia pode ser conseqüência da lentidão do processo de maturação dos humanos. Tal demora, segundo Futuyama (2002), pode ser conseqüência da seleção para o grande aprendizado (inteligência), que é, nossa característica mais importante.

Com o aumento da capacidade para a cultura, os seres humanos foram moldando para si próprios um meio social cada vez mais complexo e variável. As pressões culturais foram responsáveis pela aquisição de novas características, como o aumento do pênis, sendo uma conseqüência da seleção sexual. Outra aquisição foi a receptividade sexual contínua da fêmea, talvez sendo uma adaptação para manter a união do casal. Entretanto, existem pouquíssimas evidencias de tais hipóteses, sendo difícil testa-las.

Algumas dúvidas surgem a respeito de como a inteligência evoluiu a um grau tão extraordinário. Segundo Futuyama (2002), a inteligência e selecionada positivamente (quanto mais freqüente essa característica, mais vantajosa ela é). Tem sido sugerido que a inteligência pode ter evoluído através das competições e agressões entre os hominídeos primitivos, que necessitavam de habilidades mentais cada vez maiores. Porém, não há evidências a respeito. Em outra hipótise, a inteligência pode ter evoluído em ambientes pacíficos, onde havia uma desvantagem em indivíduos menos inteligentes, seja na sua sobrevivência ou reprodução.  

Homo sapiens é uma espécie cosmopolita. Não existem barreiras biológicas de isolamento entre as populações humanas, embora os acasalamentos geralmente ocorram a partir das barreiras culturais criadas.

Os estudos de variação genética que a humanidade divergiu muito recentemente na historia. Existem diferenças muito pequenas entre as “raças”, além das morfológicas facilmente reconhecidas. E, não há razão para distinguir as “raças” em grau de habilidades mentais.

Nei e Roychoudhury construíram um fenograma que mostra o grau de similaridade entre as populações humanas. Considerando as freqüências gênicas, de uma maneira geral, a similaridade genética das populações está relacionada com a proximidade geográfica, que é esperado quando há fluxo gênico.

As condições culturais das sociedades humanas têm influenciado e continuam influenciando nossa evolução biológica. A partir daí, surgem questões, como: nosso comportamento pode ser limitado pelos genes?

Devido a nossa capacidade sem paralelo para a aprendizagem e para o pensamento e à história exclusiva da experiência pessoal de cada um, cada ser humano experimenta um ambiente diferente e a variação no nosso comportamento é, correspondentemente, diversa.

Nosso comportamento é geneticamente determinado no sentido comum, porém também é verdade que nosso comportamento é uma consequência do ambiente.

Argumentar que nosso comportamento, como uma espécie, é geneticamente determinado, significa simplesmente dizer que ele tem limites- que a norma de reação é tão limitada pelos nossos genes de tal forma que o quer que seja, se desenvolva independentemente das condições ambientais.

Conclusão

Evidências anatomicas, macromoleculares e cromossômicas indicam que os humanos são mais intimamente relacionados com os macacos do Velho Mundo, tendo divergido de um ancestral comum provavelmente há4-8 milhões de anos.

Os registros fósseis indicam que os hominídeos surgiram na África, que a evolução do bipedalismo precedeu as mudanças importantes nas mãos e no crânio e que a capacidade craniana aumentou uniformemente.

A variabilidade genética dentro e entre populações humanas é muito semelhante à de outras espécies com ampla distribuição geográfica.

É muito discutível se a biologia evolutiva é importante ou não para compreender o comportamento humano. Embora muitas características comportamentais humanas possam ser observadas em uma forma rudimentar em outros primatas, o fator dominante na evolução humana recente tem sido a evolução de enorme flexibilidade do comportamento e a capacidade de aprender e transmitir cultura.

Existem pouquíssimas evidências inequívocas de que grande parte da variação nas qualidades comportamentais humanas tenha uma base genética e nenhuma evidência de que as características comportamentais sejam limitadas geneticamente de modo significativo.

Referências:

  • Mark Ridley, Evolução, Blackwell, 3a edição (2003) 
  • Douglas J. Futuyma, Biologia Evolutiva, Sinauer Associates, 3a edição (1998)
  • <http://www.assis.unesp.br/darwinnobrasil/humanev3.htm#fala> Acessado em 17 de novembro de 2011

 

 

 

 

 

 

 



publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 10:45
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