Este é um Blog educacional, dedicado a discussões acadêmicas sobre a Ecologia Evolutiva. Contém chamadas específicas relacionadas às disciplinas de Ecologia da Universidade Federal de Ouro Preto, e textos didáticos gerais.
Terça-feira, 28 de Outubro de 2008
Evolução - Stephen Jay Gould

 

Prezados,
 Deixei no Xerox dois capítulos do livro de Stephen Jay Gould, “Desde Darwin – reflexiones sobre historia natural”. É em espanhol, mas talvez mais fácil que inglês para alguns. O primeiro capítulo fala dos grandes intervalos primos de tempo de sincronia de cigarras e bambus, e faz considerações sobre a evolução destes processos. Em particular, a sincronia de floração de bambus faz parte de nossa memória de campo, não é? Em 2002, uma espécie de bambu floriu no Parque Estadual do Rio Doce, criando uma grande massa de varas secas e inflamáveis. Desde que começamos as pesquisas lá, em 1999, foi o único evento deste tipo. Porém, em 1967 um grande incêndio queimou todo o sul do parque, a área de matas mais abertas e com maior densidade desta espécie de bambu. Terá sido esta queimada de 35 anos antes fruto da floração anterior deste bambu? Pode ser.
 O fato é que isto traz a tona toda uma nova discussão e foco sobre fisionomia de florestas tropicais e a influência de espécies “engenheiras” na construção das comunidades vegetais.  Por muito tempo considerou-se que o sul do parque era aberto e descontínuo devido ao impacto do fogo. Entretanto, dominado um solo mais arenoso, proveniente do assoreamento do antigo paleoleito do rio doce, esta floresta tem diversos elementos florísticos do cerrado, como Byrsonima sericea, Xillopia aromatica, dentre outras. A dinâmica de floração do bambu (em associação com o aumento da probabilidade de fogo  – uma estratégia comum a diversas espécies para abrir espaço físico para a entrada de luz e germinação de suas sementes) e as condições edáficas podem estar associadas a uma floresta com aspectos e fisionomia de cerradão, e eventualmente ela queima por que é como é, e não o contrário!
Palmeiras pantaneiras, bambus, capins, todos incendiários.... sincronias longas e imprevisíveis para evitar predação... ou ganhar na competição - são todos fenômenos de ANALOGIA.  Ajustes adaptativos similares para aproveitar oportunidades semelhentes são extremamente freqüentes na natureza. Quando acontecem como convergência entre taxa extremamente distintos, a interpretação do fenômeno é clara. O problema é quando acontecem em grupos taxonomicamente próximos, gerando grupos parafiléticos, ou seja, com semelhanças que não são frutos de herança ancestral comum, mas aproximações adaptativas difíceis de separar. Por exemplo, as chaves de identificação de Coleoptera, ao nível de família, tem vários braços parafiléticos, onde agrupamentos dentro de sub-ordem ou superfamília, passam por similaridades frouxas, que podem ou não ser analogias.
Como utilizar o conhecimento de adaptações e ambiente para diagnosticar a validade de árvores filogenéticas pouco conhecidas? Pense nisto.


publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 16:47
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Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008
Prova participativa de Ecologia de Populações

 

Seguem as minhas respostas, ou sugestões sobre as suas perguntas. O objetivo desta atividade é aguçar a sua percepção do conteúdo estudado, mas também expor suas limitações quanto à estruturação da informação escrita. Perceba, o conhecimento aqui estudado já é difícil. Se você tenta complicar, fica impossível. Tanto a resposta quanto a pergunta tem que apontar para o esclarecimento, sendo que uma induz a outra. É fundamental não escrever demais, não escrever sem entender PLENAMENTE  o que se escreve, e não misturar conceitos nem tentar “rebuscar”sua fala. Assim, os comentários são 100% sinceros e portanto, 0 % diplomáticos, mas tapinha nas costas e aprendizado não andam de mãos dadas.
Lembre que você vai ser julgado pela pergunta feita pelo grupo e pela resposta individual dada depois. Não perguntem o que você não der conta de responder, pois a sua pergunta pode ser selecionada. Mas, não faça perguntas medíocres, que eu posso resolver montar a prova com as minhas próprias perguntas. O nível feito hoje na sala foi muito bom, com as ressalvas aqui apontadas. Bom trabalho!
História de vida
P - Considerando duas populações de T. aurea uma localizada no pantanal e outra no cerrado. Caso uma praga seja introduzida nestes ambientes (pressão biótica) qual destas populações será mais afetada?  Explique levando em consideração história de vida.
R – Está claro para quem assistiu às aulas a resposta, suponho. Uma pressão biótica exógena (que neste caso, deveria ser mais apropriadamente chamada de “herbívoro invasor” – ser uma praga é uma possibilidade para alguns invasores, mas não todos – e espécies nativas também podem ser pragas) afetaria mais indivíduos do pantanal, que evoluíram com baixa pressão de herbivoria, portanto não sendo adaptados para um aumento na pressão de herbivoria.
A pergunta não é má, mas pressupõe aprendizado específico.  A falha está neste ponto, pelo menos na minha perspectiva sobre como construir uma “pergunta educativa”. O que está por trás da pergunta é a pressão adaptativa que moldou as populações de T. aurea do cerrado, favorecendo indivíduos com maiores investimentos em defesas contra herbívoros, enquanto os indivíduos do pantanal eram pressionados pela urgência de crescer acima da linha d’água de suas várias inundações, e sem muita pressão de herbivoria. Neste caso, o ideal é focar no conceito e não no exemplo. Com base no exemplo real, seria interessante criar um “sistema hipotético” com diferentes pressões evolutivas favorecendo hard-selection, por um lado, e soft-selection, do outro. Induzir a mostrar e explicar um exemplo, faria aqueles que entenderam o sistema T. aurea a utilizá-lo e explicá-lo.
 
Seleção natural
P - A pressão seletiva é determinante para fenótipos análogos (funcionalidade adaptativa)?
R – a resposta é sim, e é fundamentada no entendimento de que não há coincidência para surgimento de similaridades (comportamentais, morfológicas, fisiológicas) independentes na natureza, a menos que estas similaridades sejam equivalentes na vantagem adaptativas que trazem ao seus portadores. É o caso da similaridade corporal do dingo, marsupial predador de áreas abertas da Austrália, e os cachorros selvagens africanos.
Esta pergunta é do tipo dura e seca. Ela trás à tona a necessidade de ter um certo conjunto de informações teóricas amplas, e saber aplicá-la sem nenhuma pista. É uma pergunta capciosa, que pode levar distraídos ao erro. É uma pergunta excelente, que só faço quando tenho certeza que um assunto difícil foi amplamente (bem ensinado) entendido. Ela depende de uma aula clara e bem elucidativa (há muito tempo não faço uma destas...).
Predação
P - Uma população de angiospermas tem a estrutura reprodutiva dos seus indivíduos herbivorada ao longo do tempo evolutivo. Observou-se que a população persistia no local. Sendo esta uma população pequena e isolada como a predação influencia na dinâmica desta população?
R – Pressupõe-se adaptação e um ajuste de longo prazo à herbivoria – já que se fala de herbivoria no tempo evolutivo e sobrevivência. Eu não saberia, porém, responder qual seria a relação da herbivoria e a população pequena e isolada, talvez por que não haja uma relação direta de uma coisa com a outra. Haveria, certamente, um efeito sobre herbívoros especialistas, que teriam pouca chance de sobrevivência se algo acontecesse com a sua pequena e isolada fonte de alimentos e abrigo. Porém, quanto à planta exposta à herbivoria, é preciso lembrar que cada indivíduo vive sua exposição aos herbívoros GENERALISTAS sem ser muito afetado pela densidade populacional de sua espécie. Herbívoros generalistas atacam indivíduos de qualquer espécie. Importante notar, estes generalistas são sim adaptados, e bem, à densidade de vegetação e conjunto fitoquímico típico de um dado ecossistema.  Assim, herbivoria aconteceria sobre estes quaisquer plantas  do mesmo jeito, à parte os especialistas. A teoria fala muito da dificuldade de herbívoros virarem especialistas de espécies fugitivas, super pioneiras e anuais, mas isto tem nada haver com populações pequenas e isoladas.
 
Esta não é uma pergunta muito boa.  Ela mistura na primeira sentença “ataque”e “estrutura reprodutiva”. Estrutura reprodutiva pode ser os tecidos reprodutivos predados, ou uma percepção não dos indivíduos, mas da proporção de indivíduos reproduzindo na população.  Ou seja, está dúbio e confuso. Depois, a pergunta mistura aspectos de isolamento e predação. Finalmente, eu preferia ver perguntas sobre predação verdadeira. Embora, rigorosamente é possível lidar com a herbivoria como um tipo de predação, com exceção do ataque a sementes, herbivoria prejudica sem matar. Portanto, é mais parasitismo que predação, que pressupõe a supressão da presa pelo predador.
Dinâmicas populacionais
P -Exemplifique uma situação onde uma alteração no ambiente a longo prazo possa afetar a dinâmica de uma população e explique as conseqüências trazidas por esta alteração utilizando os conceitos de seleção natural.
 
R - Esta questão traz um problema inverso de uma anterior. É vasta demais. Por ser assim, dá margens à longas respostas de mais de uma página e com muita dispersão de aspectos, por um lado, e para respostas curtas e maliciosas, por outro. É como perguntar “diga tudo que sabe sobre dinâmicas de populações”. Bem, se o cara não sabe nada e responder “não sei nada”, está certo né? Assim, vou responder: uma população de grilos na beira da água está exposta à mudança gradual de PH desta água. Isto afeta algumas espécies de plantas nas margens, mudando a oferta de recurso para cima (veja, respondi – é algo que afeta a dinâmica por aumentar a capacidade suporte). Entretanto, aumentada a população deste grilo, nenhum efeito seletivo foi observado (respondi – o conceito de seleção natural foi usado).


publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 04:52
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Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008
Discussão adiada - um aeroporto por sobre o último grande remanescente de Mata atlântica de Minas

Criança com febre, um aeroporto por sobre um parque estadual, e ficamos de novo para depois.

 

À parte questões pessoais, fui tomado pela urgência de responder a uma ameaça que para a maioria era desconhecida, incluindo, eu mesmo. A USIMINAS está com um projeto de construção de uma aeroporto de capacidade para 360 mil passageiros/ano, a ser construído dentro da zona de amortecimento do Parque Estadual do Rio Doce. Ignorando TODAS as leias ambientais deste país, mais uma vez o Estado de Minas Gerais está abrindo na marra as portas para o progresso a qualquer custo. Este aeroporto não tem ainda um estudo de viabilidade ambiental concluído, mas a Empresa fala em obras iniciadas em dezembro deste ano. Na surdina, em um lugarejo chamado Bom Jesus do Galho (é longe, de tudo, até do empreendimento), nesta terça feira, será feita a audiência sobre tal empreendimento. Com pista voltada para o parque, além da poluição sonora e atmosférica, haverá o estranho risco de acidentes com aves, mas há a cega conivência de todos passando por cima de todos os fatos. 

 

Este triste fato pediu um texto urgente para ser vinculado no exterior, pois aqui, estamos cercados. Há outros fatos como este, e é preciso reagir. Não sei o quanto as pessoas percebem que não há mais controle do conjunto total de impactos relacionados à siderurgia e mineração em Minas Gerais. Os estudos são pontuais, mas o efeito se dá na escala macro, mas nada para a demanda urgente de metais da China! E nós, viramos chineses. O governo gosta de falar que é por causa do PIB, mas é por causa da negligência com os impactos ambientais.

 

Só que aqui, vivemos uma ridícula revisão do conceito Marxista da Ditadura do Proletariado, para penarmos a Ditadura do Empresariado. Com a população empregada, e ainda em grande parte ignorante dos efeitos das mudanças ambientais em grande escala, não há vozes contrárias. Ou, não havia. Agora há.

 

Ficamos com o estudo para a prova a ser feita ao longo da semana. Discutimos isto na segunda. Abraços

 

Sérvio

 



publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 02:33
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