Este é um Blog educacional, dedicado a discussões acadêmicas sobre a Ecologia Evolutiva. Contém chamadas específicas relacionadas às disciplinas de Ecologia da Universidade Federal de Ouro Preto, e textos didáticos gerais.
Quinta-feira, 29 de Abril de 2010
Primeira prova de Evolução - dicas

 Prezados alunos,

 

Segue abaixo as minhas sugestões sobre as respostas que deram em sala. De maneira geral, siga uma receita simples: 1 sentença = 1 informação; responda no formato de parágrafo, com 1 sentença introdutória do seu raciocínio, 2-3 sentenças de desenvolvimento, 1 sentença de conclusão do raciocínio. Não largue substantivos, adjetivos desamparados do sujeito ou da ação do sujeito, seja coerente e economize nas palavras. Como esta correção abaixo, há no blog outras correções de provas antigas. Vasculhe para sacar o estilo!

 

Para ler: Futuyma - Biologia Evolutiva - Caps 1,2,4,5.6.8 e 9.

Redley - Evolution - Caps 1,4,5,6,11,13,16.

 

Bons estudos, e mandem dúvidas pelo email.

 

Respostas revistas:

 

A SUA RESPOSTA

1)                  Principais propriedades que delimitam uma espécie: genéticas e  nicho. Conceito eco-genético de espécie: espécies definidas apresentam um genótipo e nicho próprio, podendo no entanto ocorrer o polimorfismo. Sozinhos, os critérios genético e ecológico não seriam suficientes: A) o critério ecológico (nicho) sozinho não é suficiente para delimitar uma espécie, porque não mantém sua integridade em áreas simpátricas; b)o critério genético não é suficiente porque re-arranjos cromossômicos ocorrem.

A CORRETA

- Esta resposta perde em escala de precisão. É claro que há aspectos genéticos que emergem da existência de uma população coesa e identificável como uma espécie. Porém, é preciso definir isto melhor. O uso vago de termos e conceitos te induz ao erro. Ideal seria você dizer que um conjunto compartilhável e comum de genes, uma herança de alelos de mesma ancestralidade, disponíveis via fluxo gênico e reprodução panmítica. Por outro lado, nicho é uma propriedade emergente de uma espécie, sem dúvida, pois é a característica de uso e ocupação de recursos dentro de uma ou várias comunidades. De fato, o nicho fundamental é a margem completa de recursos descritos como utilizáveis/ocupáveis pela espécie. Mesmo que em cada local seu nicho realizado seja diferente. Assim, a conclusão sobre “áreas diferentes” não se sustenta, fora que falar em “áreas simpátricas” é uma confusão de terminológica que matou tudo.

 

 

A SUA RESPOSTA

2)                  Podemos definir quando uma espécie mudou a ponto de não poder mais ser considerada a mesma que a ancestral no momento em que a reprodução ao ser “forçada” (pois parte-se de uma condição que não há mais fluxo gênico- o que define o início do processo de especiação), não gera descendente viáveis (férteis). A escala na qual parece ser mais difícil determinar este limiar é a temporal (ou melhor onde não há a espacial), pois neste tipo não temos a existência de barreiras física que dificultam o fluxo gênico.

 

 

A CORRETA

O suo de termos coloquiais cria confusão e imprecisões. Está associado a isto nesta resposta a aparente intenção de dizer algo que não foi devidamente escrito!  É preciso explicar processos, como “após um grande período com interrupção do fluxo gênico (que pode iniciar o processo de especiação) caso seja tentado uma reprodução artificial/experimental, não se obtém descendência fértil”. A explicação “(ou melhor onde não há a espacial)” incorre no mesmo erro da falta de precisão, com margem ao confundimento.

 

A SUA RESPOSTA

3)                  Não houve especiação mas sim a dominância de um novo fenótipo melhor adaptado, não necessariamente tendo tempo de se isolar reprodutivamente constituindo uma nova espécie. Talvez o conjunto de diferentes caracteres acumulados durante a coexistência não tenha sido suficiente para caracterizar uma nova espécie.

 

A CORRETA

A primeira sentença está toda correta, embora seria de melhor leitura dividida em duas sentenças: “...Não houve especiação mas sim a dominância de um novo fenótipo melhor adaptado.  A seleção gradual de um fenótipo em um cenário variável pode se dar sem isolamento reprodutivo, portanto sem uma nova espécie”. Já a segunda sentença apresentada, além de ser uma mera repetição da anterior, traz a palavra “coexistência” sem associação clara de que coexistência do que com o que! 



publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 18:18
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Terça-feira, 20 de Abril de 2010
O que é espécie? Uma análise provocativa!

O capítulo introdutório do livro do Levin (2000) deixa claro que o que aceitamos como espécie é na verdade um apanhado de propriedades emergentes que atribuímos a um grupo de populações que comungam destas propriedades em seus detalhes. Assim, desde as características morfo-comportamentais, que são a expressão fenotípica dos caracteres selecionados, bem como uma relação de troca gênica panmítica e universal entre os grupos fundamentam a definição geral do que seria uma espécie. Observe, nada disto existe em "um indivíduo", mas é uma propriedade emergente por ser um produto comum que nos permite eleger uma identidade! Entretanto, para bem além da reprodução panmítica com descendentes férteis, temos aspectos controversos nos limites de quem é quem, em especial nos trópicos, onde espécies co-genéricas, variedades, sub-spécies e ecotipos são amplamente confundíveis. Ao aprofundarmos os estudos sobre qualquer espécie de ampla distribuição biogeográfica, descobrimos variações constantes, que se seguidas ao longo de gradientes ambientais (aumento de altitude, aumento de umidade, aumento de nutrientes, etc) correspondem aos clines. Estes são séries continuas de populações com ligeiras diferenças direcionais, frutos de ajustes finos à pressões seletivas gradualmente diferentes. Veremos mais para frente que os clines são a matéria prima para um tipo de especiação, que é a especiação parapátrica.

Toda a dúvida e percepção do que será o limite da distribuição de uma espécie é só um exemplo. Afinal, se esta muda em ambientes distintos, o que será então o limite que marca o surgimento de uma nova espécie, via especiação, no tempo? Todas estas análises  passam por estes conceitos às vezes frágeis, e pela dúvida de até onde uma espécie pode ir ser perder a premissa de não isolamento e fluxo gênico? Mais para frente, veremos que este ainda é um ponto frágil da Moderna Síntese. Embora o neo-darwinismo lide maravilhosamente bem com a sobrevivência do mais apto, e com a origem de uma espécie via a mutação de uma outra ancestral, a Teoria não apresenta todos teoremas para esclarecer este ponto de mudança, esta virada e quebra entre um “ente” para outro “ente” biológico, identificável. Assim, reflita e responda:

1)      O que são as principais propriedades emergentes que delimitam uma espécie (assuma uma definição que te pareça mais adequada e responda)?

2)      Como podemos definir em que ponto que uma espécie mudou tanto que não poderia mais ser considerada a mesma espécie que a ancestral? Em que escala te parece mais difícil determinar este limiar? Na espacial, ou na temporal? Explique.

3)      Se uma espécie não gerar uma outra espécie além dela (portanto, com a co-existência da espécie ancestral e a espécie derivada), mas simplesmente desaparecer deixando uma descendente, o raciocínio muda de que maneira?

São questões difíceis, não desespere, mas tente forçar seu raciocínio e leitura ao máximo para respondê-las. É com o fracassar sincero que se abre as portas para entender o raciocínio básico e fundamental de toda a teoria, ok? Resolvendo isto, qualquer prova será muito fácil!



publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 01:30
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